quarta-feira, 17 de março de 2010

Lago e rio




Ao abrir os sonolentos olhos, pensava no bico que fazia ao despertar e em qual caraminhola poria sua crença.
Ela não colocava os pés pra fora da cama, sem antes rezar uma ladainha inteira, febrilmente agarrada com seu terço de contas usadas e gastas que havia ganhado de sua avó materna. Uma avó quase neutra, uma senhora católica fervorosa que um dia a havia deixado ser mordida por um faminto cão, porque não podia deixar a reza de lado...
Entre uma “Ave-Maria” e outra, sua mente relaxava e driblava o mal estar e ou a ira. E se punia toda vez que vinha aos lábios algo espevitado e menos feminino.
Um dia amanheceu com os rasos olhos como um lago, ela ia e vinha quase morta por ver seu sonho desmoralizado. Onde ela teria errado? Em que parte do gigante amor, ela teria feito equívocos e desastres?
Por séculos se puniu, sua alma iluminada partira pra outro mundo, jazia então um corpo pálido e os olhos perdidos nas lembranças cruas...
E em algum momento, o pão fresco com manteiga virara disfarce pra alegria. E nisso ela se apegou pra tentar se salvar. Era uma esperança dourada, uma corda que balançava de um lado a outro e ela ferozmente se agarrou a idéia de abrir os braços e se soltar no mundo vasto.
E foi assim que num grito de riso e nado ela traspôs o lago, se banhou no rio e um fundo suspiro escapou de seu peito e se uniu ao seu amor próprio e embora com dor, ela se abraçou e pela primeira vez se permitiu ser algo leve e espontâneo e sua alma voltou.


texto e imagem by Solange Mazzeto

2 comentários:

  1. Verdade Regina! Ai que maravilha saber viu! Minha fila achou triste demais o texto, mas eu disse a ela, filha, tem sempre uma luz no fim do túnel, ou quem sabe no meio do mesmo!

    beijão!

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