sou uma borboleta
abrindo asas
sonhando mundos
dizendo a Vida
valeu querida
pelas horas findas
pelo gozo farto
e por cada esperança
[re] partida
by Solange Mazzeto
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Estação
quero você
outono e inverso
[sim inverso, não inverno]
quero seu som
penetrando meu
mundo
quero seu riso bem
simples
igual forno assando
o pão
quero seu sim
e seu não
violando meu corpo
dizendo afeição
quero você
que nem riacho
falando baixo
[pro meu adormecer]
quero você em toda
estação
roubando ladrão
o meu coração
já não o roubaste?
by Solange Mazzeto
outono e inverso
[sim inverso, não inverno]
quero seu som
penetrando meu
mundo
quero seu riso bem
simples
igual forno assando
o pão
quero seu sim
e seu não
violando meu corpo
dizendo afeição
quero você
que nem riacho
falando baixo
[pro meu adormecer]
quero você em toda
estação
roubando ladrão
o meu coração
já não o roubaste?
by Solange Mazzeto
Parolagem da vida
Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
Carlos Drummond de Andrade
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
Carlos Drummond de Andrade
sábado, 26 de dezembro de 2009
Vontade de viver em Paris

fiquei dormindo em picado
sonhando com o você
que vive bem dentro de minha pessoa
sonhei que caminhávamos por Paris
cidade luz nos doando luz
íamos de mãos dadas, braços dados
bocas falantes
beber de nossa fonte, viver de nossa sede
saciar a nossa vontade de viver
e sorriamos como nunca
texto by Solange Mazzeto
DESCONHEÇO A AUTORIA DA IMAGEM
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
O velho disco
o som metálico da chuva
telhado de vidro
um choro inaudível
fumaça de índio
pó de mico
baralho sobre a mesa
festival de pinga
pudim de leite
cinema e pipoca
e o Natal ali
batendo na porta
riso de criança
um beijo na testa
e ele sorri
by Solange Mazzeto
DESCONHEÇO A AUTORIA DA IMAGEM
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Faminta

é madrugada
acordei e me vi bem
vi que meus passos agora são tão meus
que levantei-me e pus-me a escrever
cada pancada que a vida oferece
derramo-me
é... chorei
por dor
a lágrima traduzia minha aflição
e talvez meu medo
quis abraçar-te
mas seus braços não
estavam [mais] aqui
então escutei tua voz
do além do além
e resolvi que só
nunca mais
estarei
...
TEXTO E IMAGEM by Solange Mazzeto
domingo, 13 de dezembro de 2009
Sorriso audível das folhas
Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.
Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.
Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?
Fernando Pessoa
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.
Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.
Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?
Fernando Pessoa
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Cheiro de Natal

Há um cheiro de Natal no ar, a carne assando com as batatas no seu som e cheiro infalíveis, atestam a memória de dias felizes, das uvas rosadas, do abacaxi cortadinho sem o miolo e eu comendo só o miolo, que é onde não pica a língua.
Minha irmã mais velha se arrumando, de meu pai a lembrança é escassa, lembro de minha mãe depenando galinha que ela mesma havia criado desde que era um simples ovinho e ali está a galinha amarrada com um pedaço de pano adornando as patas, e, jejum forçado de uma semana, porque como minha mãe dizia: ‘agora a galinha fica uns dias sem comer porcaria, limpando o intestino... ’ E aquele cheiro de galinha depenada na casa toda me dava é náuseas. E tinha aula de anatomia a cada matança de galinha, ali vinha minha mãe explicar as ‘particularidades’ da pobre e ainda fazia simpatia com o coração da pobrezinha, sempre havia por perto uma mulher grávida querendo saber o sexo do neném e minha mãe cortando ao meio o coração da galinha dizia: ‘se for macho que fique fechado, se for fêmea que fique aberto’, e punha a cozinhar o coração, junto à moela, pescoço, peito, asas e rabo da galinha e sempre dava certo, eficiente essa ultra-sonografia de minha mãe...
E vinham tios e tias e primos e primas na mesa de minha casa, e era rica a ceia, nunca chique, mas rica de alegria, tinha um tio especial que me chamava de ‘princesa’, eu gostava tanto dele, dos olhos azuis, do tom de pele rosado, das bochechas gordas onde me aninhava, ainda posso ouvir as risadas que ele soltava.
Íamos à igreja, rezar, agradecer e cantar, eu sempre fazia teatrinho para o Menino Jesus.
E criança naquela época dormia cedo para que o Papai Noel, colocasse presente na botinha.
Eram bons esses Natais onde prevalecia a alegria e a esperança certeira que eu ganharia meu presente de Natal.
crônica Solange Mazzeto
DESCONHEÇO A AUTORIA DA IMAGEM
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Cora Coralina
sábado, 5 de dezembro de 2009
Fascínio
Os degraus

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...
(Baú de Espantos)
poema de Mário Quintana
fotografia: Solange Mazzeto
Visão de Clarice Lispector

A escritora, em seu apartamento em Nápoles, na Itália, onde viveu entre 1944 e 1946.
Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.
Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.
Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.
O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.
Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.
De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.
Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.
Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.
texto: Carlos Drummond de Andrade
Imagem: Clarice Lispector
Quase falta
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