domingo, 12 de fevereiro de 2012

Do gosto

gosto da melodia dos passos infantis

O presente




O presente tão querido estava ali, ao alcance da alegria.
Os olhos lá no passado, não via.
Texto--- ANA JÁCOMO

Imagem: Solange Mazzeto

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O mundo é troco de bar

viajei léguas,
adormeci séculos
derrubei
lágrima de ferro

cuspi no pão
suspirei de paixão
bebi
água apodrecida

cansei, suei,
me testei
testei você,
dei murro em teu coração
deixei marca de mordida,

pulei muros,
esmurrei paredes
destruí pontes,

fiz amizade
inimizade
também fiz

destilei veneno
vendi a alma por ‘n’ vezes

me habituei a mentir
diante da eternidade

sofri bocados
me arrependi,
cedi
dei força,
ouvi lágrimas

vivi,
vivo e continuarei fazendo o caminho
sim, no singular mesmo,
existe só um caminho pra não voltar ao mundo em troco de troco de bar...


by Solange Mazzeto

Cimento de gente

Chove e cá estou escrevendo de madrugada, a noite hoje não está ferozmente quente, como nas outras noites dessa semana. Faxinei quase casa toda, menos um quarto, ou melhor, menos três quartos da casa, quem sabe amanhã vou, abro e limpo?
Meus dedos tocam as teclas e tudo vai sumindo da vista, a canseira desaparece detrás da porta, a fome acaba diante do jornal, o mundo corre, prolixo.
Pessoas morrem, e outras nascem umas amam e outras enobrecem, agora enquanto escrevo alguém em algum lugar está com desejo de comer maçã... desejo de beijar, talvez um ser que já se foi. A morte angustia, mas é o que temos de concreto, além do cimento de nossas máscaras.

by Solange Mazzeto

Ana Jácomo, gostei dos textos dela

http://anajacomo.blogspot.com/

Talvez

talvez a gente perceba que o passar do riso e da lágrima
pulula entre dois corpos entreabertos
que o destino é onda que vai e que passa
que a alma é muda de flor
semente de árvore
e alimento de passarinho


by Solange Mazzeto

domingo, 15 de janeiro de 2012

Anoitecia

Anoitecia e o vento vigorava a cidade, castigando as árvores, eu ali na sala de estar, escutando um blues com um perfume que inebriava a memória. Tudo podia ser bege, ou nude como se diz agora.
Mas não, as cores iam e vinham perfiladas em matizes vibrantes e roxas.
E tinha o cinza, o preto, e suas nuances dentro de padrões vermelhos.
E não era o fim, nem o começo, era a era da primeira fase, era a aurora da nova estrada.
E enquanto escrevia eu ia de encontro ao meu mais terrível segredo, que no fim não era nada, e era tudo. Eu podia vislumbrar os telhados da cidade do alto da Serra, dedilhar meus dedos pelas telhas e varrer momentaneamente a minha existência.
E namorar um jovem rapaz, e folhear os livros da escola.
E sorrir por entre as pernas de um gato, prosperando a vida, a passar gentilmente pelas labaredas do fogo silvestre.
E no mais, podia ser a hora da serenata, cantando cigarra, enamorada pela lua.

TEXTO: Solange Mazzeto