viajei léguas,
adormeci séculos
derrubei
lágrima de ferro
cuspi no pão
suspirei de paixão
bebi
água apodrecida
cansei, suei,
me testei
testei você,
dei murro em teu coração
deixei marca de mordida,
pulei muros,
esmurrei paredes
destruí pontes,
fiz amizade
inimizade
também fiz
destilei veneno
vendi a alma por ‘n’ vezes
me habituei a mentir
diante da eternidade
sofri bocados
me arrependi,
cedi
dei força,
ouvi lágrimas
vivi,
vivo e continuarei fazendo o caminho
sim, no singular mesmo,
existe só um caminho pra não voltar ao mundo em troco de troco de bar...
by Solange Mazzeto
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Cimento de gente
Chove e cá estou escrevendo de madrugada, a noite hoje não está ferozmente quente, como nas outras noites dessa semana. Faxinei quase casa toda, menos um quarto, ou melhor, menos três quartos da casa, quem sabe amanhã vou, abro e limpo?
Meus dedos tocam as teclas e tudo vai sumindo da vista, a canseira desaparece detrás da porta, a fome acaba diante do jornal, o mundo corre, prolixo.
Pessoas morrem, e outras nascem umas amam e outras enobrecem, agora enquanto escrevo alguém em algum lugar está com desejo de comer maçã... desejo de beijar, talvez um ser que já se foi. A morte angustia, mas é o que temos de concreto, além do cimento de nossas máscaras.
by Solange Mazzeto
Meus dedos tocam as teclas e tudo vai sumindo da vista, a canseira desaparece detrás da porta, a fome acaba diante do jornal, o mundo corre, prolixo.
Pessoas morrem, e outras nascem umas amam e outras enobrecem, agora enquanto escrevo alguém em algum lugar está com desejo de comer maçã... desejo de beijar, talvez um ser que já se foi. A morte angustia, mas é o que temos de concreto, além do cimento de nossas máscaras.
by Solange Mazzeto
Talvez
talvez a gente perceba que o passar do riso e da lágrima
pulula entre dois corpos entreabertos
que o destino é onda que vai e que passa
que a alma é muda de flor
semente de árvore
e alimento de passarinho
by Solange Mazzeto
pulula entre dois corpos entreabertos
que o destino é onda que vai e que passa
que a alma é muda de flor
semente de árvore
e alimento de passarinho
by Solange Mazzeto
domingo, 15 de janeiro de 2012
Anoitecia
Anoitecia e o vento vigorava a cidade, castigando as árvores, eu ali na sala de estar, escutando um blues com um perfume que inebriava a memória. Tudo podia ser bege, ou nude como se diz agora.
Mas não, as cores iam e vinham perfiladas em matizes vibrantes e roxas.
E tinha o cinza, o preto, e suas nuances dentro de padrões vermelhos.
E não era o fim, nem o começo, era a era da primeira fase, era a aurora da nova estrada.
E enquanto escrevia eu ia de encontro ao meu mais terrível segredo, que no fim não era nada, e era tudo. Eu podia vislumbrar os telhados da cidade do alto da Serra, dedilhar meus dedos pelas telhas e varrer momentaneamente a minha existência.
E namorar um jovem rapaz, e folhear os livros da escola.
E sorrir por entre as pernas de um gato, prosperando a vida, a passar gentilmente pelas labaredas do fogo silvestre.
E no mais, podia ser a hora da serenata, cantando cigarra, enamorada pela lua.
TEXTO: Solange Mazzeto
Mas não, as cores iam e vinham perfiladas em matizes vibrantes e roxas.
E tinha o cinza, o preto, e suas nuances dentro de padrões vermelhos.
E não era o fim, nem o começo, era a era da primeira fase, era a aurora da nova estrada.
E enquanto escrevia eu ia de encontro ao meu mais terrível segredo, que no fim não era nada, e era tudo. Eu podia vislumbrar os telhados da cidade do alto da Serra, dedilhar meus dedos pelas telhas e varrer momentaneamente a minha existência.
E namorar um jovem rapaz, e folhear os livros da escola.
E sorrir por entre as pernas de um gato, prosperando a vida, a passar gentilmente pelas labaredas do fogo silvestre.
E no mais, podia ser a hora da serenata, cantando cigarra, enamorada pela lua.
TEXTO: Solange Mazzeto
sábado, 12 de novembro de 2011
Tempos idos
Tempos idos
vindouro
outonal
febril
hostil
infernal
retorcido
[igual galho molhado]
brilhante
venal
distante
voraz
tempo
do lado de lá
de lado de cá
by Solange Mazzeto
vindouro
outonal
febril
hostil
infernal
retorcido
[igual galho molhado]
brilhante
venal
distante
voraz
tempo
do lado de lá
de lado de cá
by Solange Mazzeto
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Caio Fernando Abreu
Olhe, não fique assim não, vai passar. Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que parece que você não vai agüentar, mas agüenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar. Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa. Que pena. A gente acha que não vai agüentar, mas agüenta: as dores da vida. Pense assim: agora tá insuportável, agora você queria abrir o zíper, sair do corpo, encarnar numa samambaia, virar um paralelepípedo ou qualquer coisa inanimada, anestesiada, silenciosa. Mas agora já passou. Agora já é dez segundos depois da frase passada. Sua dor já é dez segundos menor do que duas linhas atrás. Você acha que não porque esperar a dor passar é como olhar um transatlântico no horizonte estando na praia. Ele parece parado, mas aí você desvia o olho, toma um picolé, lê uma revista, dá um pulo no mar e quando vai ver o barco já tá lá longe. A sua dor agora, essa fogueira na sua barriga, essa sensação de que pegaram sua traquéia e seu estômago e torceram como uma toalha molhada, isso tudo – é difícil de acreditar, eu sei – vai virar só uma memória, um pequeno ponto negro diluído num imenso mar de memórias. Levante-se daí, vá tomar um picolé, ler uma revista, dar um pulo no mar. Quando você for ver, passou. Agora não dá mesmo pra ser feliz. É impossível. Mas quem disse que a gente deve ser feliz sempre? Isso é bobagem. “É melhor viver do que ser feliz”. Porque pra viver de verdade a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida.Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, doi demaais. Mas passa. Está vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que estou falando a verdade. Eu não minto. Vai passar. Caio Fernando Abreu
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