sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Translúcida




Desde menina eu gostava dessa palavra, translúcida, que quer dizer transparente, mas quando eu descobri essa palavra, eu soletrava e dizia: trans-lú-ci-daaaa.

As transparências nas emoções, nos sentimentos, sempre levaram minha mãe a me dizer:
--- menina besta que se mostra a toa.

Tempos se passaram, aprendi a suar o nariz sozinha, a limpar meu rosto de alguma baba, aprendi a amarrar os tênis, a engraxar meus brilhantes sapatos escolares.

Mas a ideia de: ‘você é besta’, não me largou.

O caminho por vezes, tanto no tato, no trato, no trajeto de um olhar ao outro, é tortuoso, com fagulhas quentes que nos fazem chorar.

Agora enquanto escrevo, a cozinha está lavada, os pratos empilhados no armário antigo, a casa cheira a cera daquelas antigas, e o pão assa no forno velho, pois não quero um forno novo, tenho medo que meus pães e meus bolos não assem mais como agora...

E nisso tudo tem o soar de chuva de um verão estranho, mas é verão.


TEXTO: Solange Mazzeto
DESCONHEÇO A AUTORIA DA IMAGEM

domingo, 2 de janeiro de 2011

Mal nenhum




o demônio corre nas veias
discorda, briga
interrompe, distrai

escape dos conselhos inúteis
da vida vadia

será?

quem quer por a pica dentro do forno e assar?

o mundo real é vermelho
o sorriso amarelado
o dente é doente
a mente infame

que será?

não faço ideia

demente, dormente
o dia amanhece

antecede
...
cede
...
distrai


TEXTO: Solange Mazzeto
IMAGEM: Tascha

sábado, 1 de janeiro de 2011

Bolo pro namorado



fiz um bolo lindo,
daqueles que a gente faz
pro namorado

peguei os ovos da galinha
botei as gemas, o açúcar
fiz um girado

as claras em alva postura
declarava o tratado
de que
amor e compostura

faz a boca render
beijo
e um bem
danado


TEXTO: Solange Mazzeto
DESCONHEÇO A AUTORIA DA IMAGEM

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O marido da vizinha



da janela de minha alma avizinho o finado defunto
o marido da vizinha
ele se vinha já de um tanto acabado
pelas mentiras da vida
acamado ficara por três dias
e morrera no dia de ontem a tardezinha

ela de um tanto acabrunhada
rezava as tantas Aves- Maria
era reza de soluço
debruçada encolhidinha

na cerca ao lado o galo cantava
um canto entristecido, melancólico
enquanto isso, triste suspiro eu tirava
de minha sina

e pensava já na morte
essa morte visitante
que não escolhe se é de dia
se é de noite

se é de dinheiro
ou se é sem tostão
essa morte ladina
que vem roubar de sonho de padaria
até sonho perfumado do lírio da manhã

e ali me vou com meu pensar
arrebatado de pujança
inaugurar o vestido preto
pra mor de ir dizer adeus
ao já enterrado
finado...defunto...
marido da vizinha


TEXTO: Solange Mazzeto
DECONHEÇO A AUTORIA DA IMAGEM

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Metade direita do verso




no soneto de sua pele
mil folhas de pétalas
abrem meu sorriso

na dianteira da sala de visita
minha saia anda
insinuando o amanhã

na fotografia de seu rosto
minha íris pulula

narro estrofes
na dança de seus olhos
o futuro é hoje


TEXTO: Solange Mazzeto
DESCONHEÇO A AUTORIA DA IMAGEM

Memória de meu corpo




bailam vampiros
demônios crescem

na noite
sinto-me
bela

na treva
vejo
o
escaravelho

dogma
do perfume abandonado


TEXTO Solange Mazzeto
DESCONHEÇO A AUTORIA DA IMAGEM

domingo, 19 de dezembro de 2010

Já não sei que horas são... [Alzheimer]


já não sei que horas são



o tempo parou dentro de mim

a dor afugentou o sonho

o controle... parei de sentir

franzina estou na cama

pequenina, quase igual criança

quero o ventre de mamãe

cadê mamãe?

não a enxergo

não a vejo

mas a quero...

meu coração bate descompassado

sinto algo parecido com sede

não sei se sinto mais fome

mas, sei que algo vem e mastigo



hoje eu lembrei do paraíso

que tanto queria fazer

lembrei do ninho do passarinho

e não pude resistir

e falei

mas, a voz que saia de minha boca era estranha

resolvi calar-me

que agonia insana



texto by Solange Mazzeto



imagem: AP Photo