quarta-feira, 17 de março de 2010

Lago e rio




Ao abrir os sonolentos olhos, pensava no bico que fazia ao despertar e em qual caraminhola poria sua crença.
Ela não colocava os pés pra fora da cama, sem antes rezar uma ladainha inteira, febrilmente agarrada com seu terço de contas usadas e gastas que havia ganhado de sua avó materna. Uma avó quase neutra, uma senhora católica fervorosa que um dia a havia deixado ser mordida por um faminto cão, porque não podia deixar a reza de lado...
Entre uma “Ave-Maria” e outra, sua mente relaxava e driblava o mal estar e ou a ira. E se punia toda vez que vinha aos lábios algo espevitado e menos feminino.
Um dia amanheceu com os rasos olhos como um lago, ela ia e vinha quase morta por ver seu sonho desmoralizado. Onde ela teria errado? Em que parte do gigante amor, ela teria feito equívocos e desastres?
Por séculos se puniu, sua alma iluminada partira pra outro mundo, jazia então um corpo pálido e os olhos perdidos nas lembranças cruas...
E em algum momento, o pão fresco com manteiga virara disfarce pra alegria. E nisso ela se apegou pra tentar se salvar. Era uma esperança dourada, uma corda que balançava de um lado a outro e ela ferozmente se agarrou a idéia de abrir os braços e se soltar no mundo vasto.
E foi assim que num grito de riso e nado ela traspôs o lago, se banhou no rio e um fundo suspiro escapou de seu peito e se uniu ao seu amor próprio e embora com dor, ela se abraçou e pela primeira vez se permitiu ser algo leve e espontâneo e sua alma voltou.


texto e imagem by Solange Mazzeto

sábado, 13 de março de 2010

Ecos

noite adentro em redemoinho
o meu corpo baila
numa estratégia de colocar
a balança da mente
no lugar

pra decolar num vôo clássico
com as plumas ao sabor do ar

mas...
as lágrimas salgadas demais
criam asas tombadas

onde gemem madrugadas
e choros estreitos
sugam
o [meu-teu] luar


by Solange Mazzeto

sexta-feira, 12 de março de 2010

Algo delicado



bater cílios

se libertar
nas asas do balão

misturar prosa e fantasia

seguir adiante
na rebelde areia
do mar


texto by Solange Mazzeto
DESCONHEÇO A AUTORIA DA IMAGEM

quarta-feira, 10 de março de 2010

Avesso

acordei com o
sentido
do prazer
que tenho em ser
rosa
do vento

só que
gotas do avesso
borraram meu sensor
e gotejaram
.
.
.
veneno de dor


Solange Mazzeto

terça-feira, 9 de março de 2010

Uma arte

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.


Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.


Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.


Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.


Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.


- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre.


Poema: Elizabeth Bishop
Tradução de Horácio Costa

sábado, 6 de março de 2010

Era assim




cantando trovinhas
em
pedaços de fita

a estrada tão rica
a estafa não vista
um rosto a mirar

do alto do céu
planos e sonhos
era assim
voar
...


texto: Solange Mazzeto
DESCONHEÇO A AUTORIA DA IMAGEM

Língua

bala da rima
brinca
na língua


by Solange Mazzeto